segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O amor de Deus e a gratidão do pecador

zaqueu-g
“A glória de Deus é a vida do homem” (Sto. Ireneu). Quando esse homem é pecador, esta frase soa: “Deus não quer a morte do pecador, mas sim, que ele se converta e viva” (Ez 18,23). Deus gosta apaixonadamente de sua criação. Não quer que algo se perca. Daí, suas incansáveis tentativas para recuperar os homens que – porque Deus lhes deu a liberdade – se afastaram dele. Quando ele castiga os pecadores, é com intenção pedagógica: para lhes lembrar o pecado e fazer com que se convertam, voltem (1ª leitura). Ora, quando o pecador se volta para Deus, já encontra Deus voltado para ele (Lm 5,21; Lc 15,20). No perdão, conjugam-se o interesse de Deus, procurando o que estava perdido (Lc 15,4-10.32; 19,10), e o do homem, procurando a presença do Pai (Lc 15,18). Conjuga-se o amor do pecador, que se chama contrição, com o amor de Deus, que se chama perdão (cf. Lc 7,36-8,3; 11° dom.). É o que acontece com Zaqueu, o publicano (como aperitivo deste episódio, tivemos, domingo passado, a parábola do fariseu e do publicano). Zaqueu procurou ver Jesus, subindo numa árvore (por duas razões: porque era “baixinho” – humilde – e porque assim ficaria escondido dos comentários dos vizinhos, que o detestavam). Mas Jesus estava também à procura de Zaqueu e de todos os publicanos e pecadores, para lhes oferecer a graça de Deus. Assim aconteceu o encontro. Jesus se faz acolher pelo pecador! Institui com ele a amizade marcada pela comunhão da mesa. E Zaqueu responde à comunhão restituindo o quádruplo do que tiver recolhido desonestamente e dando a metade de seus bens aos pobres. O Filho do Homem veio para salvar o que estava perdido (Lc 19,10) (evangelho).
Este episódio se insere na perspectiva final do evangelho de Lc e de todo o ano litúrgico, a perspectiva escatológica. Em Mc, a última etapa da viagem de Jesus, Jericó-Jerusalém, é marcada pela cura do cego, que se torna discípulo. Em Lc, essa narração é, por assim dizer, geminada com a de Zaqueu. Jesus cura o cego por causa de sua fé, mas faz mais ainda: cura o pecador por causa de sua procura de ver Jesus, o enviado do Pai. É a hora em que “toda a terra vê a salvação de Deus”, enquanto Jerusalém não reconhece a hora de sua visitação (19,44). Jericó é o lugar da fé, em oposição a Jerusalém, lugar da morte do profeta (embora daí deva sair a salvação para o mundo inteiro). Por isso, Jesus “visita” Zaqueu, o convertido da última hora.
Estamos no fim do ano litúrgico, na hora de acolher aquele que nos visita. Esse acolhimento, porém, não é espalhafatoso. É o acolhimento no coração esvaziado do orgulho (cf. dom. pass.) e do pecado. Acolhendo o Salvador, enche-se de alegria (19,9). Nesta alegria, seremos capazes de realizar o que nosso coração nos inspira; repartir generosamente tudo o que Deus nos deu. Somos como o povo em dia de festa: reparte tudo, para nada sobrar…
No fim do ano litúrgico lêem-se, na 2ª leitura, as cartas escatológicas de Paulo: 1 Ts (ano A) e 2Ts (ano C). Hoje inicia a leitura da 2Ts. Na 1 Ts, Paulo acentuou a seriedade da perspectiva escatológica: devemos estar prontos para o Dia do Senhor, vivendo como de dia, ocupados com as obras justas que Deus nos confiou, sobretudo, o serviço fraterno. Na 2Ts, critica os que exageram a perspectiva da Parusia; os fanáticos, que, sob o pretexto da proximidade da Parusia, já não fazem nada… Usurpam o nome de Paulo para espalhar suas opiniões. Portanto, diz Paulo: desconfiai de tais notícias. A proximidade da vinda não dispensa o bom senso! Se “a causa de Deus é a causa do homem”, a proximidade de Deus, em vez de nos desestimular da construção de um mundo mais humano, deve ser mais um incentivo para fazer com que Deus, quando vier, encontre uma casa que o possa acolher como Pai de todos os seus filhos. Mesmo se sabemos que, em última análise, ele mesmo construirá nossa casa! Pois isso não nos dispensa de lhe oferecer hospitalidade, transformando o mundo numa digna moradia para os nossos irmãos, representantes em nosso dia-a-dia. Isso é “a graça de lhe servir como convém” (oração do dia).
Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Post: Amilton Vieira

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